O COMÉRCIO DE BRECHÓS FICOU CARO MESMO?

Ou foi a nossa percepção de valor que foi moldada socialmente?

Quem aqui ama comprar em brechó? E quem aqui acredita que o brechó ficou gourmetizado? Levantem as mãos! Se você levantou a mão para uma das perguntas, ou ambas, não se sinta só, porque existem vários discursos e argumentos desvalorizando o preço de uma peça de brechó.

Por muito tempo a percepção de valor para um brechó sempre foi de roupas pelo preço de banana. Peças e acessórios que variavam de R$5,00 a R$10,00. Ou seja, roupas baratas e sem curadoria. O que poucos entendem é que esses locais não se tratam de brechós, mas sim de bazares.

Diferente do mercado de fast fashion o brechó é um mercado que trabalha com roupas usadas, ou second hand (peças de segunda mão), outlet, CGC, vintage e etc. Em sua maioria possuem nichos específicos, público segmentado e, processos de curadoria e garimpo, muitos bem definidos. O que faz com que deixe de se tornar um bazar e passe a fazer parte do segmento de brechós.

Já o fast fashion é um mercado que trabalha a partir de tendências, em muitos casos aquilo que aparece nas passarelas acaba indo parar nas araras de roupas das lojas de departamentos. O fast fashion se traduz pela roupa rápida e barata, com processos definidos para atender à todos os públicos (e nunca um único em específico), uma escala industrial que faz com que o consumidor acredite que precisa daquela bruzinha de R$10,00.

E tudo isso é moldado socialmente. Como se só o fast fashion pudesse satisfazer a nossa necessidade, desejos e anseios, por um novo look. Enquanto isso usamos o discurso de que quem compra em brechó só compra roupa de morto, e que se for para dar R$200,00 em uma jaqueta de couro é melhor comprar em uma loja fast fashion (e em muitos casos a jaqueta nem é de couro mesmo, na loja de departamento).

MAS COMO ISSO MUDA NOSSA PERCEPÇÃO DE VALOR?

No mundo em que vivemos hoje, com uma economia instável, onde o trabalhador, em muitos casos, trabalha para sobreviver (e não viver), a roupa barata, que é prouzida em escala industrial, torna-se a alternativa mais viável e “economica” para aqueles que querem estar na moda, consumir as tendências que irão desaparecer daqui há um tempo - as mesmas tendências que irão parar em brechós.

E esse mesmo mundo economicamente instável, para grande parte da população, nos tirou a percepção de que brechó pode ser o local onde você encontrará a mesma roupa que existe na loja de departamento, por um preço muito mais em conta. Porque aquela economia que nos disseram que fariamos em uma peça pode não ser viável se a peça não for algo que utilizaremos de acordo com aquilo que somos e comunicamos. Optamos pelo barato e descartável, e descartamos o economico e durável.

Consumir moda vai muito além de apenas comprar uma roupa. Para o consumidor, enquanto indíviduo, é uma caracteristica da própria individualidade. A roupa é uma parte daquilo que somos: nossas fantasias, sonhos, desejos, nossas experiências e vivências, nossas lutas políticas e culturais, etc. O vestir-se é uma forma de representar o indíviduo como ele é.

Por isso fica aqui minhas perguntas: o brechó ficou caro mesmo? Ou foi nossa percepção de valor que foi moldada socialmente?

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